Vocês já ouviram falar no Shen Yun? A primeira vez que tomei conhecimento deste grupo foi através dos inúmeros cartazes de suas apresentações espalhados pela cidade, incluindo um no departamento onde trabalho. As fotos são lindas e os movimentos lembram balé clássico, o que chamou logo a minha atenção. Na tv, incessantes propagandas do Shen Yun onde dizia “Venha vivenciar a China antes de Mao! Isto, claro, instigou ainda mais minha curiosidade. Então, o que é o Shen Yun?

Shen Yun Performing Arts (Chinês: 神韻藝術團) foi fundado em 2006, em Nova York com o objetio de resgatar a cultura e tradição chinesas pré-revolução. Em 2007, Shen Yun fez sua primeira turnê, com 90 bailarinos sem contar com músicos e outros membros da trupe. Em 2009, eles formaram mais duas companhias que saíam em turnê com suas respectivas orquestras. Com performances de tirar o fôlego, até o final de 2010, Shen Yun já tinha se apresentado para mais de um milhão de espectadores.
Tudo parecia ir de vento em popa quando em 2016, a embaixada chinesa na Coreia do Sul ameaçou o teatro que estaria sendo usado para as apresentações do Shen Yun, oferecendo dinheiro em troca do cancelamento de todas as apresentações do grupo. E, parece que esta prática continuou, com a China sempre colocando pressão em cima dos teatros e ministérios ao redor do mundo para atrapalhar as apresentações do Shen Yun. Com suas belas apresentações que encantam o público, o que teria feito o Shen Yun para deixar o governo chinês tão incomodado?

Alguns atribuem a resposta agressiva do regime à uma polêmica coreografia do Shen Yun que fazia alusão à perseguição ao movimento Falun Gong na China. O Falun Gong, também conhecido como Falun Dafa, está enraizado nas tradições budistas e taoístas e tornou-se amplamente popular na China continental durante a década de 1990. Foi proibido em 1999 e tem sido brutalmente perseguido desde então. O Partido Comunista Chinês declarou retroativamente o grupo como um “culto maligno”, a fim de justificar os seus horríveis atos de prisão em massa, tortura e extração forçada de órgãos. Entre os praticantes do Falun Gong que emigraram por questões de segurança, está um grupo de dançarinos e músicos profissionais que fundou a trupe do Shen Yun para celebrar livremente sua fé espiritual e sua herança chinesa.

Para alguns, o esforço autoritário do regime para censurar o espectáculo de dança evidencia a sua profunda insegurança quanto à sua própria legitimidade professada para encarnar a civilização chinesa. A afirmação do Shen Yun de representar a tradição chinesa, pelo menos do ponto de vista da teoria artística, é precisa. A formação dos seus intérpretes centra-se na dança clássica chinesa, uma forma de arte institucionalizada apenas na década de 1950, mas que herdou todos os seus padrões de trabalho com os pés, movimentos corporais e técnicas acrobáticas de tradições vernáculas centenárias, como o teatro e as artes marciais.
Além disso, o Shen Yun absorveu um conjunto tradicional de teorias artísticas baseadas na metafísica e em cosmologias taoístas, que prescreviam o fluxo contínuo de uma ressonância espiritual para além do movimento da forma física. Tais teorias perderam gradualmente a sua substância intelectual no século XX, especialmente depois de o Partido Comunista ter suplantado sistematicamente as escolas tradicionais de pensamento pelo ateísmo e pelo materialismo marxista.
Os ensinamentos espirituais do Falun Gong, aos quais aderem os criadores do programa, incluem uma unidade essencial entre o material e o espiritual, com a qual os seres humanos devem tentar ser coerentes. Para o dançarino, é portanto importante refinar o seu próprio caráter moral e ao mesmo tempo, melhorar as suas capacidades físicas, para que o pensamento virtuoso possa estender-se do coração ao corpo na representação de histórias de heroísmo, bondade e devoção.
Esta interpretação espiritual da cultura chinesa teve um impacto global convincente. O público ocidental relata sentir-se elevado na alma após a apresentação. Até o público chinês que compareceu aos espetáculos também ficou profundamente comovido com uma “verdadeira tradição” ausente na China pós-Mao.
Com toda esta polêmica, tenho certeza que agora, até você vai querer ia ao espetáculo do Shen Yun, certo? Eu também. Assim que eles passarem novamente pela cidade onde moro, comprarei meus ingressos e irei assistir a famosa “China de antes de Mao”.
Fontes: Shen Yun – Página oficial e New York Times
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