A instituição dos eunucos na China possui origens muito antigas. Uma das primeiras referências a homens castrados a serviço da corte aparece no Tso Chuan, em um registro referente ao ano de 535 a.C. Contudo, os historiadores geralmente concordam que foi apenas durante o reinado do imperador Han Huan Ti (146–167 d.C.) que a crescente influência dos eunucos passou a representar uma fragilidade estrutural do governo imperial, tornando-se, ao longo do tempo, um fator recorrente de instabilidade política.

Textos clássicos mencionam a presença de eunucos nas cortes reais já durante a dinastia Zhou. No entanto, foi sobretudo no período dos Estados Combatentes (séculos V–III a.C.) que sua atuação se institucionalizou de forma mais sistemática. A consolidação dessa instituição esteve diretamente ligada à organização da corte chinesa e, em especial, à existência do harém imperial.

Como o harém podia reunir centenas ou até milhares de mulheres, os governantes buscavam assegurar a legitimidade da sucessão dinástica. Temia-se que funcionários masculinos mantivessem relações sexuais com as concubinas e gerassem descendentes capazes de reivindicar o trono. Nesse contexto, homens castrados passaram a ser considerados guardiões ideais dos aposentos internos do palácio. Por não poderem gerar filhos biológicos, acreditava-se que representavam um risco menor para a ordem sucessória.

Além de desempenharem funções administrativas e domésticas, os eunucos mantinham contato frequente e íntimo com o imperador, uma vez que conviviam diariamente tanto com o soberano quanto com as mulheres do palácio. O rígido protocolo cortesão e a vida reclusa imposta ao imperador contribuíam para estreitar ainda mais essa relação. Em muitos casos, os eunucos, conhecedores das preferências, fraquezas e preconceitos do monarca, tornavam-se seus principais conselheiros informais.

Essa proximidade lhes permitia exercer considerável influência política. Frequentemente, moldavam a percepção que o imperador tinha do mundo exterior e atuavam contra ministros que ameaçavam sua posição. Em defesa dos eunucos, contudo, deve-se reconhecer que o aumento de seu poder não resultou apenas de suas ambições pessoais, mas também das disputas políticas envolvendo as famílias das consortes imperiais e do próprio isolamento do soberano dentro da estrutura palaciana.

Castração e o cotidiano dos eunucos

Tornar-se um eunuco exigia um procedimento extremamente doloroso e arriscado: a remoção cirúrgica do pênis e dos testículos. A operação era realizada por especialistas conhecidos como “mestres da purificação” e, na maioria das vezes, ocorria sem qualquer forma eficaz de anestesia.

A sobrevivência após a cirurgia não era garantida. Muitos candidatos morriam em decorrência de infecções ou complicações pós-operatórias. Aqueles que sobreviviam frequentemente enfrentavam dificuldades físicas permanentes, como incontinência urinária, além de estarem sujeitos a severas punições, espancamentos e intenso desgaste psicológico ao longo da vida.

Castração como punição penal

Durante a Antiguidade chinesa, a castração também integrava o sistema das chamadas “Cinco Punições” (wuxing 五刑). Muitos condenados eram enviados para trabalhos forçados na corte imperial após o cumprimento da pena, e, com o passar do tempo, esse contingente penal passou a constituir uma parcela significativa do corpo de eunucos.

Um dos casos mais conhecidos é o do historiador chinês Sima Qian, autor do Shiji (Registros do Historiador). Condenado à castração no século I a.C., Sima Qian optou por aceitar a punição e permanecer na corte para concluir sua monumental obra histórica.

O sistema de eunucos e as práticas de castração variaram significativamente ao longo das diferentes dinastias chinesas. Durante a dinastia Qing, por exemplo, a castração geralmente envolvia a remoção completa do pênis, do escroto e dos testículos. Embora as leis proibissem oficialmente que manchus se tornassem eunucos, muitos dos eunucos da corte Qing eram de origem manchu ou mongol.

Apesar de os eunucos terem sido empregados em praticamente todas as dinastias chinesas, seu número diminuiu significativamente durante a dinastia Qing, quando muitas de suas funções passaram a ser desempenhadas pelo Departamento da Casa Imperial. Ainda assim, no início do século XX, cerca de dois mil eunucos trabalhavam na Cidade Proibida.

A historiografia confuciana tradicional frequentemente retratou os eunucos como símbolos de corrupção e decadência dinástica. Pesquisas recentes, entretanto, sugerem que essa imagem reflete também as rivalidades políticas entre os burocratas letrados e os servidores palacianos. Historiadores contemporâneos têm enfatizado o papel dos eunucos como agentes fundamentais da administração imperial e da cultura cortesã.

Mas o sistema de eunucos foi uma instituição exclusiva da China ou se difundiu por outras regiões da Ásia? Fique atento às próximas postagens para descobrir.

Fonte: Chinese Eunuchs: The Structure of Intimate Politics, de Taisuke Mitamura. trad. de Charles Pomeroy.
O livro usado como referência para este artigo se encontra disponível no Internet Archive, no link abaixo: https://archive.org/details/chineseeunuchsst00mita

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