Na corte do século XVIII dos reis Nayaka de Tanjavur, uma voz feminina singular surgiu para romper os limites artísticos impostos ao gênero e à sexualidade. Muddupalani, uma cortesã na majestosa corte do rei Pratapasimha (1739–1763), aproveitou seus privilégios únicos para compor aquilo que foi, muito provavelmente, a primeira obra poética erótica da literatura indiana escrita explicitamente a partir de uma perspectiva feminina.

Sob o patrocínio de governantes que se orgulhavam de manter cortesãs altamente instruídas, Muddupalani juntou‑se a outras estudiosas e poetas de elite entre os ilustres homens de letras da corte. Os reis Nayaka eram conhecidos como amantes da música, da dança e da literatura, fluentes em telugo, tâmil, marata e sânscrito. Nesse ambiente intelectual raro, onde mulheres podiam ter acesso à educação, Muddupalani direcionou seus talentos para deslocar de forma ousada as perspectivas masculinas sobre erotismo e desejo.

Radhika Santawanam: o obra prima de Muddupalani

A obra revolucionária de Muddupalani foi o poema de 584 versos Radhika Santawanam, que capturou sem pudor os anseios íntimos e o empoderamento sexual da figura mitológica hindu Radha. Embora outras poetas‑cortesãs ocupassem posições elevadas, Muddupalani ousou criar uma poesia que expressava sem restrições a psiqué sensual feminina. Pouco depois da publicação, o livro foi alvo de uma torrencial enxurrada de críticas. O escritório da editora foi invadido, e nove de seus livros , incluindo Radhika Santawanam, foram apreendidos. Grupos literários organizaram protestos contra a proibição injusta da obra, motivada por apenas alguns versos eróticos.

Felizmente, quando se descobriu que alguns dos títulos confiscados haviam recebido apoio do Raja de Venkatagiri, o governo decidiu minimizar o caso. Embora alguns livros tenham sido salvos temporariamente, Radhika Santawanam acabou vítima de uma proibição literária. Em 1911, o comissário de polícia Cunningham e o magistrado‑chefe da presidência acusaram Nagarathnamma e seus editores de editar e publicar literatura obscena. O livro foi proibido, e a maior parte dos exemplares destruída.

O poema descreve em detalhes a passagem de Ila Devi pela puberdade e a consumação de seu casamento com Krishna. Como tia de Ila Devi, Radha aconselha a jovem noiva sobre como responder às investidas amorosas de Krishna.

Sua obra épica, Radhika Santawanam, funciona como uma profunda reflexão sobre a cultura das Devadasis, então predominante. Como integrante dessa comunidade, a criação literária de Muddupalani ilumina a história trágica e as experiências das mulheres dedicadas ao serviço dos templos desde muito jovens. Por meio de suas descrições vívidas, ela trouxe à tona a dura realidade das Devadasis, tratadas como objetos a serem trocados entre templos e cortes reais ao sabor dos caprichos de homens poderosos.

Apesar de receberem educação e treinamento em artes como dança e música, e de poderem ocupar posições respeitadas ou até se casar, o sistema Devadasi acabava por condenar essas mulheres a viverem à margem, como prostitutas institucionalizadas com futuros incertos.

As nuances autobiográficas são evidentes na linhagem de cortesãs que Muddupalani traça com orgulho, descrevendo-se como neta de Tanjanayaki e filha de Rama Vadhuti. Os temas da traição e do ciúme podem refletir suas próprias experiências quando seu consorte, o rei Pratapsimha, voltou sua atenção para sua avó nos anos posteriores, depois de inicialmente favorecer Muddupalani.

A obra conheceu um renascimento no início do século XX graças aos esforços de outra devadasi, a erudita Nagarathnamma, fundadora da Tyagaraja Aradhana em Thiruvaiyaru, evento que continua sendo o mais famoso festival de música carnática do mundo). Quando Nagarathnamma republicou o manuscrito, restaurando passagens que haviam sido suprimidas por um editor anterior, a obra foi considerada ofensiva devido ao seu conteúdo sexual, à luz dos padrões morais predominantes da época, e acabou sendo proibida em 1911.

Para a alegria geral do público que não entende telugo, sua obra ganhou uma tradução em inglês, entitulada The Appeasement of Radhika, de Sandhya Mulchandan.

Abaixo, temos a tradução de dois poemas de Muddupalani. Todas as traduções são de minha autoria, pois ainda não temos estes poemas em língua portuguesa.

Como Ler um Livro

Quando estiver lendo
e encontrar um espinho,
arranque-o.

Use o seu conhecimento
para curar o livro.

Não dê ouvidos aos poetas
que vivem de encontrar defeitos.

Eles são má companhia.

Tradução: Juliana Stracciolano

Tradução do trecho de Radhika Santawanam no qual Muddupalani aconselha Krishna como ele deve agir com sua nova esposa.

………..Deixe a ponta da língua
deslizar sobre seus lábios;
não a intimide
com mordidas bruscas.

Pouse em suas faces
um beijo delicado;
não a fira
com o corte de unhas afiadas.

Toque seu mamilo
com a leveza dos dedos;
não a assuste
apertando-o demais.

Entregue-se ao amor
aos poucos;
não a assuste
com ímpetos agressivos…

tradução: Juliana Stracciolano

Fonte:https://feminisminindia.com/2024/05/17/muddupalani-the-defiant-muses-feministic-erotic-verse-indianwomeninhistory/

https://www.oberlinlibstaff.com/acceleratedmotion/primary_sources/texts/bharatanatyam/muddupalani.pdf

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