Desde o primeiro dia de aula de língua japonesa, aprendemos que o Japão não possuía um sistema de escrita próprio e que o primeiro sistema de escrita do país foi o Kanji (ideogramas chineses), introduzido via Coreia. E dele, surgiram o katakana e hiragana, os primeiros sistemas de escrita que um iniciante em língua japonesa aprende. Mas, você já duvidou desta teoria em algum momento? Se o Japão é tão antigo quanto a história oficial conta, será mesmo que não teve seu próprio sistema de escrita? Se você já se fez esta pergunta, não se preocupe. Ela já atormenta historiadores, arqueólogos e linguistas há séculos no Japão.

Na verdade, esta dúvida começa a partir do Shaku Nihongi, um comentário do Nihon Shoki (720) compilado no final do sécul XIII pelo estudioso Urabe Kanekata. Segundo ele, este comentário no Nihon Shoki poderia indicar que o Japão ou Yamato, possuía seu próprio sistema de escrita desde a era dos deuses, um período mítico quando se acreditava que a divindade Susano havia composto o primeiro poema do Japão, e a deusa do Sol declarou que seu filho governaria a terra.

Representante daqueles que argumentaram que existia uma escrita antiga no Japão antes da introdução dos livros e da escrita chinesa foi Hirata Atsutane. Em seu Koshichō (古史徴), Hirata afirmou que, nos tempos antigos, o que ele se referia como o kamiyo moji (神大文字)também conhecida como Jindai moji (escrita da era dos deuses), estava em uso.

Quanto à questão de como este sistema de escrita se relacionava com a escrita chinesa, a essência do argumento de Hirata era a seguinte: quando livros chineses foram trazidos para o Japão por estudiosos como Atiki e Wani, caracteres chineses começaram a ser usados nos textos em pequena escala, pelo seu valor sonoro, em combinação com o sistema de jindai moji e à medida que a familiaridade com os caracteres chineses usados dessa forma aumentava, chegou-se ao ponto em que os textos estavam sendo escritos inteiramente em caracteres chineses. Nesta fase, os caracteres chineses foram adotados também por seus significados e, assim, com o tempo, o jindai moji caiu em desuso. (ver Hirata Atsutane zenshuu kankoutai vol. 2 pp.42-44)

Nas primeiras décadas do séc. IX, diversas variantes do suposto sistema de escrita antigo estavam em circulação. Em 1819, no Kanna Hifumi den (Tradição do Sistema de escrita Hifumi), Hirata manteve a tese de que um sistema de escrita japonês existira nos tempos antigos, embora ele tenha admitido que nem todas as versões deste suposto sistema eram autênticas. Algumas das variantes as quais ele achou duvidosas, também foram incluídas no seu compêndio sob o título de Giji hen.

Obiviamente, nem todos os estudiosos aceitaram as alegações feitas sobre o jindai moji. Motoori Norinaga (1730-1801) alegou que este sistema era falso em seu Kojiki den (1764-1798, publicado em 1822), um comentário monumental sobre o Kojiki, assim como Ban Nobutomo (1773-1846), que em seu Jindaiji ben, um apêndice de Kana no Motosue (história detalhada de Kana, 1850), argumentou que a principal variedade do script sobre a qual Hirata havia depositado tanta confiança era, de fato, uma fraude de origem tardia, baseada no sistema coreano hangul, inventado no século XV pelo Rei Sejong.

Como Ban Nobutomo corretamente apontou, havia semelhanças impressionantes entre algumas variantes do jindai moji e o hangul coreano. Isso, junto com o fato de que o inventário de sílabas do jindai moji reflete a língua japonesa de um período não anterior ao final do século X, demonstra que este sistema de escrita foi imaginado e fabricado por estudiosos xintoístas que não estavam dispostos a reconhecer que a escrita era mais um dos muitos aspectos culturais dos quais o Japão inicialmente dependeu da China e da Coreia (fonte: História da escrita japonesa, Christopher Seeley, 2000).

O interessante é que não só no Jindai moji, mas em outros sistemas de escritas que estudiosos dizem ter existido no Japão, como o Oshite moji, a ordem das sílabas é a mesma do kana, com cinco sílabas em cada coluna. Um fato, no mínimo, curioso.

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