Como vimos no artigo anterior, o Kojiki e o Nihon Shoki são duas das mais antigas e completas obras compiladas no Japão e ambas contém passagens relacionadas à introdução da escrita no país. Aqui, temos uma importante passagem do Kojiki:
Além disso, o rei da terra de Paekche, o rei Shoko, ofereceu um garanhão e uma égua, que enviou acompanhados por Atikisi(1). Este Atikisi é o ancestral das famílias de escribas Achiki. O rei também ofereceu uma espada e um grande espelho.
O imperador ordenou à terra de Paekche, dizendo: “Se houver um homem sábio, apresentem-no!” Portanto, em resposta a essa ordem, foi apresentado um certo Wanikisi. Os Lunyu (Analectos de Confúcio), em dez volumes, e o Qianziwen (Clássico dos Mil Caracteres), em um volume, foram oferecidos juntamente com esse homem. Este Wanikisi é o ancestral dos Fumi no Obito (Chefes da Escrita).

Como veremos adiante, a passage acima contém algumas diferenças se comparada a seção equivalente no Nihon Shoki:
Ano 15 do imperador Ōjin. Outono, 8º mês, 6º dia. O rei de Paekche enviou Atiki e apresentou dois belos cavalos como presente.. Os cavalos foram mantidos em estábulos na encosta de Karakusa, e Atiki foi encarregado de sua alimentação. O lugar onde os cavalos eram cuidados passou, portanto, a ser chamado de encosta Umaya (“encosta do estábulo”). O príncipe herdeiro Uji no Waki Iratsuko tomou Atiki como seu mestre. O imperador perguntou a este: “Há algum homem erudito mais excelente do que você?” Atiki respondeu: “Wani é superior a mim.” Arata Wake, ancestral do senhor de Kamitsukeno, e Kamunaki Wake foram enviados a Paekche para convocar Wani. Este Atiki é o primeiro ancestral das famílias de escribas Atiki.
Ano 16. Primavera, 2º mês.
Wani chegou, e o príncipe herdeiro o tomou como mestre. O príncipe aprendeu diversos livros com Wani. Não havia obra que Wani não compreendesse. Ele foi o ancestral dos Fumi no Obito.

Uma das discrepâncias mais perceptíveis entre os dois relatos acima é que o Nihon shoki não especifica os nomes das obras trazidas ao Japão por Wani, enquanto, segundo o Kojiki, Wani trouxe o Lunyu (Analectos de Confúcio) e também o Qianziwen (Texto dos Mil Caracteres), entre outras divergências. Apesar de tais discrepâncias e do fato de haver certa dificuldade no relato do Kojiki, já que a obra chamada Qianziwen, tal como a conhecemos hoje, não foi compilada antes do final do século V, é comum a ambas as versões uma tradição subjacente segundo a qual livros e escrita chinesa teriam sido introduzidos por um ou mais estudiosos vindos de Paekche.

Quanto à data em que Atiki e Wani ou outros estudiososde Paekche atravessaram para o Japão, de acordo com a cronologia tradicional do Nihon shoki, Atiki teria chegado em 284 d.C. (15º ano do reinado do imperador Ōjin), seguido por Wani em 285. No entanto, o Nihon shoki primitivo foi distorcido por seus compiladores em sua tentativa de se adequar à teoria cronográfica chinesa antiga. Para compensar isso, aceita-se que, para o reinado de Ōjin, deve-se acrescentar um período equivalente a dois ciclos sexagenários chineses (ou seja, 120 anos) à data tradicional. Feito esse ajuste, a chegada situar-se-ia no século V, época em que grande número de imigrantes da península coreana (incluindo alguns de origem chinesa) entrava no Japão em busca de refúgio diante das convulsões políticas.
A forma de escrita trazida ao Japão nesse período era o chinês, ou seja, caracteres chineses dispostos segundo as convenções da sintaxe clássica chinesa. Para os japoneses, realizar uma transição abrupta do estágio em que nem sequer compreendiam o que era a escrita para o estágio de leitura e redação na difícil variedade literária de uma língua estrangeira teria sido praticamente impossível. Por essa razão, eles dependeram, ao menos inicialmente, de pessoas vindas do continente, como Wani, para ler e compor textos. Essa visão é corroborada pelo uso de caracteres chineses em certas inscrições antigas (do século V) compostas no Japão, que sugerem que seus autores eram, com grande probabilidade, de origem coreana.
Informações complementares
- Wani Kisi em caracteres chineses se escreve 和邇吉師.
- Atikisi em caracteres chineses se escreve 阿知吉師.
- Acredita-se que o nome Atikisi seja um contração de Atikikisi. Atiki é como o nome aparece no Nihon shoki, a palavra Kisi aparece no Kojiki, é explicada ´pelos estudiosos Kurano Kenji e Takeda Yukichi como sendo um termo para designar uma patente oficial coreana.
- Há outras versões para os nomes de Wani Kisi e Atikisi dependendo da obra.
- Fumi no Obito – Um dos diversos termos usados de forma hereditária por certas famílias de escribas.
- Nem todos os estudiosos japoneses concordam que Atiki e Wani existiram. Contudo, eles podem ter sido adotados como um simbolismo para explicar o processo no qual o conhecimento da escrita fora transmitido ao Japão.
Fonte: The History of Writing in Japan, Christopher Seeley, 2000, p. 4-7 tradução nossa)
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