Goa talvez seja a ex-colônia portuguesa mais conhecida na Índia. E, com razão: famoso por suas praias paradisíacas, Goa só passou a fazer parte do território indiano em 1961, após 451 anos de domínio português. Entretanto, outras cidades importantes foram colônias portuguesas ou, pelo menos, receberam uma forte influência lusitana. São elas:

Goa: Tomada em 1510 por Afonso de Albuquerque, tornou-se a capital e o centro administrativo do Império Português do Oriente em 1530.

   Daman (Damão): Situada na costa de Gujarat, permaneceu sob controle português até 1961.

 Diu: Um forte insular estratégico na costa sul da Península de Kathiawar, capturado em 1535.

Dadra e Nagar Haveli: Enclaves no interior a partir de Daman, que faziam parte das posses coloniais até 1954.

Cochim (Kochi): Serviu como base inicial e contou com o primeiro forte português (Forte Manuel) em 1503.

Bombaim (Mumbai): Uma posse colonial até ser doada aos britânicos em 1661.

Em todas estas cidades, a presença portuguesa é visível até hoje. Porém, dentre todas, em Goa é visível não só na arquitetura e nas igrejas centenárias, como a Basilica of Bom Jesus, construída em 1594 e onde repousam os restos mortais de São Francisco Xavier, mas também, nas centenas de nomes de ruas e estabelecimentos em português.

Porém, engana-se quem pensa que basta chegar lá para ouvir o idioma de Camões. Apesar dos nomes de ruas em português e de muitos indianos terem sobrenomes portugueses, como D’Souza ou Da Costa, o português não é falado nas ruas. A Universidade de Goa oferece cursos de bacharelado e mestrado em língua portuguesa e conta também com professores portugueses. Ainda assim, o idioma não é usado no cotidiano, ao contrário do que muita gente no Brasil imagina.

Entretanto, a herança da língua portuguesa em Goa é incontestável, e ela já ocupou um lugar importante na sociedade goense. Geralmente usada como língua burocrática, também era o idioma da Igreja Católica, em que sermões e outros rituais eram conduzidos em português. Acima de tudo, falar português, durante muito tempo, foi entre os católicos de Goa um status, sinal de pertencimento a uma elite formada em colégios católicos e, portanto, educada em língua portuguesa.

Apesar de seu prestígio, o português nunca foi uma língua majoritária em Goa. Um censo de 1960, pouco antes do fim do governo português, registrou que apenas 3,5% dos goanos falavam português, incluindo os cidadãos portugueses que viviam na colônia. O concani (ou Konkani), sim, permaneceu como a língua majoritariamente falada, enquanto o português era associado à escolaridade, mobilidade e acesso às estruturas coloniais.

Ainda que o grupo de falantes fosse relativamente pequeno, ele conseguiu gerar um círculo de produção literária em língua portuguesa: a chamada literatura indo-portuguesa. Surgida em conventos católicos e posteriormente expandida pela imprensa de Goa após 1821, essa literatura inclui textos religiosos e pedagógicos, poesia influenciada pelo Romantismo português, romances e contos que retratavam a sociedade goense. Entre seus principais autores estão Francisco Luís Gomes, Gip (Francisco João da Costa), Adeodato Barreto, Orlando da Costa, Vimala Devi e Epitácio Pais.

Após a integração de Goa à Índia, o português rapidamente perdeu seu apoio institucional. As escolas passaram a adotar o inglês e o concani como línguas principais, embora algumas ainda ensinem português. O idioma deixou de ser administrativo, e as novas gerações deixaram de estudá-lo. Hoje, ao visitar Goa, com muita sorte talvez você encontre idosos que ainda conseguem se comunicar em português.

Para encerrar, apresentamos o poema Goa, de Vimala Devi.

GOA

 Na madrugada de lágrimas e esperança,
Teu pranto é o meu.

De ti me vem um apelo
Dolorido e ancestral.

No meu pensamento serás sempre
O eterno sonho luso
Comunhão de mosteiros e pagodes.

 O Súria divino Esconde-se tímido
 Cobrindo de luto
Teus rios e prados!
 Calam-se murdangas e batuques;
Mandós são lamentos do folclore em agonia…
(continua)

No meu antigo blog, eu escrevi alguns posts sobre Goa e Damão e publiquei juntamente com os vídeos para o meu canal no Youtube.

Há uma postagem sobre Damão, também, um ex-território português na Índia.

Fontes:

https://www.indiaseminar.com/2012/630/630_everton_v._machado.htm

https://goa.fflch.usp.br/linha-do-tempo-seculo-xx-1961-1999-0

https://itsgoa.com/francisco-luis-gomes-story

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