O ano era 2012 e eu pisava na Índia pela primeira vez. O motivo: conhecer a família do meu então noivo. A porta de entrada foi Delhi e naqueles primeiros dias, parecia que o caos tinha tomado conta da cidade. O mundo, estarrecido, acompanhava a notícia que manchou a imagem da Índia no exterior até os dias atuais: o brutal estupro e assassinato da jovem de 23 anos que ficou conhecida como Nirbhaya[1] em um ônibus em movimento, em Delhi.

Após dias internada em estado grave, Nirbhaya não resistiu aos ferimentos e veio à óbito. O mundo e a própria Índia já não podiam mais fechar os olhos para um problema cujas raízes são muito profundas e o qual não será extinguido apenas com campanhas apoiando a educação das meninas, como a lançada pelo governo Modi, em 2015 (Beti Bachao, Beti padhao). Na Índia, iniciou-se uma onda de protestos que mobilizou o país e levantou a questão: A Índia odeia as mulheres? Sem ainda ter resposta para esta pergunta, assim eu desembarcava na Índia pela primeira vez.

O caso Nirbhaya desencadeou uma série de reformas nas leis contra estupro no país, com muitas cidades e distritos abrindo brigadas com o nome de Nirbhaya, com policiais do sexo feminino fazendo a ronda à noite.

Maio de 2026. Enquanto eu aguardo o julgamento do meu divórcio após um casamento abusivo que terminou com uma medida protetiva, fui bombardeada esta semana com a notícia da morte de duas jovens indianas: Twisha Sharma, de 33 anos e Deepika Nagar, de 24 anos. Twista Sharma, modelo, atriz e vencedora de concurso de beleza, foi morta em 12 de maio, apenas cinco meses após o casamento com o advogado Samarth Singh, em Bhopal (Índia). Tudo isso, acompanhado das declarações polêmicas de sua sogra, que alega que Twisha não era uma boa dona de casa e que não regava as plantas.

A família de Trisha, no entanto, recusou-se a realizar a cremação da filha, pois deseja que o caso seja investigado, uma vez que Twisha já havia reclamando várias vezes de que a vida dela com a família Singh era um inferno e que tinha sido obrigada a abortar, além de outras evidências. Já no dia 17 de maio, a jovem Deepika Nagar, 24 anos, morreu em circunstâncias altamente suspeitas, 17 meses após o casamento. A morte ocorreu na casa da família do marido, em Greater Noida, e rapidamente foi registrada como morte por dote (dowry death) devido à gravidade das acusações e das lesões encontradas no corpo da vítima.

Ambos os casos estão sendo tratados como mortes por dote. Mas vocês sabem o que é o dote e como ele funciona na sociedade indiana?

Na segunda parte desta postagem, abordaremos este tema e deixaremos, também, algumas referências bibliográficas sobre o assunto para quem quiser se aprofundar. Por enquanto, fiquem algumas notícias de morte por dote ocorridas este ano na Índia.

https://www.bbc.com/news/articles/czd2q140my1oTwisha Sharma: Rival claims of murder and suicide set off media frenzy after Indian bride dies

https://timesofindia.indiatimes.com/city/noida/greater-noida-dowry-death-deepikas-family-demands-fast-track-trial-as-cops-search-for-sisters-in-law/articleshow/131251070.cms

https://timesofindia.indiatimes.com/city/gurgaon/gurgaon-woman-found-dead-family-allegeshusband-injected-poison-over-dowry/articleshow/129724167.cms

https://indianexpress.com/article/cities/delhi/dowry-death-delhi-woman-last-call-brother-tortured-10700785


[1] Nirbhaya – Destemida (tradução nossa).

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