Parveen Shakir: A Voz Feminina que Redefiniu a Poesia Urdu

Quem aprecia poesia certamente conhece o grande legado da tradição persa, que se estendeu pelo subcontinente indiano e se estabeleceu durante o Império Mogol através do persa e do urdu. Essa influência é notória até hoje nas canções de Bollywood, cujo vocabulário poético prova que o amor ganha ainda mais beleza quando expresso em urdu.

Entre os grandes nomes dessa história, destacam-se pioneiras revolucionárias como Naheed e Riaz, mas foi Parveen Shakir (1952–1994) quem trouxe uma sofisticação distinta, suave e poderosa ao ghazal moderno. Parveen foi pioneira ao utilizar o pronome feminino em primeira pessoa (Main) na poesia romântica, trazendo uma nova fragrância e lirismo incontestáveis à literatura urdu.

Nascida em Karachi em 24 de novembro de 1952, Parveen (chamada carinhosamente de “Para” pela família) demonstrou ser uma estudante notável. Frequentou a Islamia High School e a Rizvia Girls Secondary School, graduando-se posteriormente com honras em Língua Inglesa e Linguística pela Universidade de Karachi. Mais tarde, obteve o título de mestre em Administração Pública pela Universidade de Harvard.

Sua carreira literária começou cedo, transitando entre prosa, poesia e colunas em jornais. Após nove anos na docência, ingressou no Serviço Civil do Paquistão no departamento de alfândega, tornando-se, em 1986, segunda-secretária do Central Board of Revenue em Islamabad.

A obra de Parveen é célebre pela exploração profunda de temas sensíveis e tipicamente negligenciados pelo ponto de vista feminino. Tendo Ahmed Nadeem Qasmi como seu ustad (mestre, a quem chamava de “Ammujaan”), ela usou a gramática e os ghazals para dar voz à experiência das mulheres. Seu livro de estreia, Khushboo, recebeu o Prêmio Literário Adamjee em 1976 e, em 1990, ela foi condecorada com o Pride of Performance, uma das maiores honrarias do Paquistão.

Casou-se com seu primo, o Dr. Syed Naseer Ali, com quem teve um filho, Murad Ali, mas a união foi breve. Infelizmente, em 26 de dezembro de 1994, Parveen faleceu prematuramente em um acidente automobilístico em Islamabad, a caminho do trabalho. Em sua homenagem, a via onde ocorreu o acidente foi rebatizada como Perveen Shakir Road, e sua amiga próxima, Parveen Qadir Agha, fundou o Parveen Shakir Trust.

Hoje, Parveen Shakir é considerada uma das maiores e mais proeminentes poetisas modernas da literatura urdu, reconhecida por ter dado o toque feminino mais belo à sua tradição. Enquanto seu primeiro livro refletia o olhar de uma jovem contida, suas obras posteriores espelham as dores de sua maturidade: um casamento incompatível, a maternidade, as pressões dos sogros, a conciliação entre carreira e vida familiar e, por fim, o divórcio.

Parveen sentia-se incompreendida por sua família e pelo casamento, especialmente em relação à sua paixão pelos Ghazals e Nazms. Nem mesmo sua fama e brilhante carreira pública conseguiram blindá-la do patriarcado e de tradições obsoletas. Refletindo sobre seus últimos dias, Parveen Qadir Agha relata na biografia Teardrops, Raindrops: “A penteadeira de Parveen sempre foi cheia de maquiagem, mas, quinze dias antes de sua morte, sua mesa estava quase vazia e o uso de cosméticos havia cessado. Era como se ela já estivesse pronta para a jornada da eternidade”.

(1) Um ghazal é um poema lírico tradicional da literatura árabe e persa que expressa, de forma melancólica e profunda, as dores do amor não correspondido e a busca pelo divino.

Aqui, apresentamos aos nossos leitores, um dos ghazals mais famosos de Parveen Shakir, onde ela fala de um amor não correspondido. A tradução e adaptação foram feitas por mim mesma.

Ku-ba-ku phail gai baat shanasai ki
Em cada canto, espalhou-se a notícia da nossa intimidade

Us ne Khushboo ki tarah meri pazirai ki.
Ele me acolheu como se acolhe um perfume

Kaise kah doon ke mujhe chor diya hai us ne
Como posso dizer que ele me abandonou?


Baat to sach hai magar baat hai rusvai ki.
A verdade seja dita, mas ela só traz desonra

Vo kahin bhi gaya lauTa to mere paas ayaPor onde quer que ele tenha andado, foi para mim que ele voltou


Bas yahi baat hai achchhi mere harajai ki
Essa é a única coisa boa nesse amor infiel

Tera pahalo tere dil ki tarah abad rahe
Que a tua presença seja tão plena quanto o teu coração.


Tujh pe guzare na qayamat shab-e-tanhai ki
Que jamais tenhas que suportar o tormento de uma noite solitária.

Us ne jalati hui peshani pe jo hath rakha;
Quando ele colocou a mão sobre minha testa ardente,

Rouh tak aa gai taseer maseehai ki
A influência da cura milagrosa chegou até minh’alma

Aqui você pode apreciar os belos versos sendo recitados pela própria Parveen e em seguida, a versão em ghazal, com uma bela interpretação:

Parveen recita

Ghazal:

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