
Landay (pronuncia-se “landai”) é um fragmento de canção oral e muitas vezes anônimo, criado por e para pessoas majoritariamente analfabetas: as mais de vinte milhões de mulheres pashtuns que se espalham pela fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Tradicionalmente, os landays são cantados em voz alta, muitas vezes ao ritmo de um tambor de mão, o qual, junto com outros tipos de música, foi proibido pelo Talibã de 1996 a 2001 e, em alguns lugares, ainda é.
A palavra landay significa “pequena cobra venenosa” em pashto. O nome é cirúrgico: esses poemas são curtos, mas têm uma “picada” letal. Eles não são feitos para serem lidos, mas sim cantados ou recitados, muitas vezes ao som de um tambor chamado zerbaghali.
A Estrutura
Diferente da poesia ocidental, o landay segue uma estrutura métrica muito específica, mas que não se baseia em rimas:
- É um dístico (um poema de apenas dois versos).
- O primeiro verso tem exatamente 9 sílabas.
- O segundo verso tem exatamente 13 sílabas.
Embora a vida pública das mulheres Pashtun seja frequentemente vigiada, no landay elas cantam sobre o que quiserem. Não há censura, mas também não há autoria, pois ela sempre se mantêm anônima. Os temas giram em torno de quatro pilares principais:
1. Amor e Desejo Símbolo
Ao contrário do estereótipo de submissão, os landays revelam mulheres com forte desejo sexual e autonomia emocional. Eles frequentemente ridicularizam casamentos arranjados e maridos incapazes.
“Meu amor é jovem; se ele morrer, eu choro. Se meu marido velho morrer, eu limpo a casa e festejo.”
2. Guerra e Pátria
As mulheres pashtun usam os landays para encorajar a coragem ou criticar a covardia dos homens na guerra (seja contra os britânicos, soviéticos ou americanos).
“Se você fugiu do campo de batalha, meu amor, não volte para mim. Vá morrer, e que tragam seu corpo sem vida.”
3. Separação e Dor (Gham)
O sofrimento causado pela distância, pela guerra e pelas fronteiras geográficas artificiais (como a Linha Durand, que separou o povo Pashtun entre o Afeganistão e o Paquistão).
4. Tecnologia e Modernidade
Os landays são uma tradição viva. Hoje, as mulheres cantam sobre celulares, drones, redes sociais e internet. O telefone, por exemplo, virou uma ferramenta secreta de romance.
“Você me envia mensagens de texto, mas não sabe que o celular pertence ao meu pai agressivo.”

O Anonimato como Escudo e Coletividade
Uma das características mais marcantes do landay é que ele não tem autor. Nenhum landay pertence a uma única mulher; eles pertencem a todas.
Como a sociedade pashtun impõe o conceito de Nang (honra), uma mulher que assine um poema falando sobre desejo ou criticando a religião poderia ser severamente punida, ou até morta. Por isso, os poemas são transmitidos oralmente de boca em boca nas tarefas diárias, como buscando água, em casamentos ou ao redor do fogo durante a preparação das refeições. Uma mulher ouve, muda uma palavra para se adequar à sua realidade, e o poema ganha uma nova vida.
Por que eles são tão importantes hoje?
Durante o primeiro regime do Talibã (e novamente após o retorno deles ao poder), a música e a expressão feminina foram severamente reprimidas. Os landays tornaram-se ferramentas de resistência silenciosa.
O mundo ocidental tomou maior conhecimento dessa tradição graças ao trabalho da jornalista e poeta afegã Eliza Griswold. Ela viajou pelo Afeganistão investigando essa cultura e publicou o aclamado livro “I Am the Beggar of the World: Landays from Contemporary Afghanistan” (Eu sou o mendigo do mundo: Landays do Afeganistão Contemporâneo). O título do livro, inclusive, vem de um landay doloroso sobre a opressão:
“No meu sofrimento, eu me tornei o mendigo do mundo. Mas ninguém conhece o segredo no meu peito.”
Os landays provam que, por trás das burcas e do silêncio imposto pelo cenário político, as mulheres pashtun guardam uma voz coletiva feroz, espirituosa, satírica e profundamente resiliente.

Traduzimos algums dos landays em português para que nossos leitores possam apreciá-los.
“Sonho que sou o presidente. Quando acordo, sou uma mendiga deste mundo.“
“Quando as irmãs se sentam juntas, elas sempre elogiam seus irmãos
Quando os irmãos se sentam juntos, eles vendem suas irmãs para os outros.”
“Deslize sua mão para dentro do meu sutiã, acaricie uma romã vermelha e madura de Kandahar.”
Aqui temos uma reportagem em inglês sobre os landay e o incrível trabalho de Eliza Griswold.
Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=oR0d97UP_8I
Tradução: Juliana Stracciolano
Fontes: https://static.poetryfoundation.org/o/media/landays.html

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