
A monumental epopeia de Manas é a mais preciosa expressão do patrimônio nacional do povo quirguiz. Composta e cantada inteiramente de forma oral por diversos cantores ao longo dos séculos, Manas é considerada o auge da criatividade da tradição oral.
Como povo nômade, os quirguizes não possuíam uma língua escrita. No entanto, desenvolveram uma extraordinária habilidade de composição oral, que empregaram artisticamente em sua poesia tradicional e em seus cantos épicos.
Como observa o renomado escritor quirguiz Chingiz Aitmatov:
“Enquanto outros povos e nações expressaram sua cultura e sua história passada por meio da literatura escrita, da escultura, da arquitetura, do teatro e das artes, o povo quirguiz expressou sua visão de mundo, seu orgulho e sua dignidade, suas batalhas e sua esperança no futuro através do gênero épico.”
O épico de Manas, que possui mais de 80 versões e foi traduzido para mais de 39 idiomas, é considerado o poema épico mais longo do mundo. Com quase meio milhão de versos, ele é 20 vezes mais extenso do que a Odisseia e a Ilíada juntas.
Agora, assim como acontece com muitas figuras míticas, a existência histórica de Manas também não é totalmente comprovada. Como ocorre com muitos personagens lendários, é possível que as histórias sobre ele tenham se baseado originalmente em uma pessoa real, mas, após séculos de transmissão oral, tenham sido elevadas ao status de uma figura mítica, maior do que a própria vida.
No Quirguistão, essa tradição de contar histórias é preservada pelos manaschi, bardos altamente treinados que dedicam suas vidas a memorizar um número quase incontável de versos e a recitar, em forma de canto, a epopeia de Manas.
Acredita-se que essas narrativas tenham surgido há mais de um milênio. A tradição dos manaschi de transmitir oralmente a epopeia como uma instituição cultural provavelmente começou no século XVI, muito tempo depois da morte de Manas, caso ele tenha realmente existido, e antes da introdução da escrita no Quirguistão.
Os primeiros a registrar a epopeia por escrito foram etnógrafos russos que chegaram ao país no século XIX. Desde então, o texto foi transcrito mais de sessenta vezes a partir da recitação de diferentes bardos, dando origem a uma nova versão a cada registro.
Embora a epopeia tenha sido traduzida em diversas ocasiões, muitas dessas traduções não foram feitas diretamente do quirguiz original, mas sim a partir de versões em russo, o que, infelizmente, acaba distorcendo o significado original da obra.
Somente em 2005 a pesquisadora quirguiz Elmira Köçümkulkïz, então doutoranda na Universidade de Washington, publicou a primeira tradução para o inglês de alguns trechos diretamente do texto original em quirguiz. Para isso, ela utilizou gravações de Sayakbay Karalaev, um manaschi que viveu entre 1894 e 1971 e que hoje é amplamente considerado o maior intérprete da epopeia de Manas de sua época e, possivelmente, de todos os tempos.
Essa tradução está disponível gratuitamente na internet e é considerada a que mais se aproxima do significado original da obra, embora grande parte da riqueza poética da língua quirguiz inevitavelmente se perca na tradução para um idioma não nativo, como o inglês.
Conhecendo Manas
Manas é um herói dotado de força sobrenatural que uniu os quarenta clãs do Quirguistão contra seus inimigos, os uigures, para fundar um Estado quirguiz. Na época, no início do século IX d.C., os uigures controlavam um dos grandes impérios do mundo, que se estendia por grande parte da Ásia Central (incluindo o atual Quirguistão), além da Mongólia e de partes da Rússia e da China.
O nascimento de Manas apresenta várias semelhanças com o de heróis que j[a conhecemos. Reza a lenda que parte de sua força veio da carne de tigre consumida por sua mãe durante a gravidez. Há algumas coincidências com personagens de tradição judaico-cristã: Manas nasce depois que seu pai, já em idade avançada, faz orações em um local sagrado, predestinado a tornar-se um líder lendário e a derrotar os inimigos que cercavam seu povo. Parte da força de Manas também provém dos espíritos animais que o protegem: um leão caminha ao seu lado e um enorme falcão voa sobre sua cabeça.
Outro elemento recorrente, compartilhado com grandes obras da literatura e da mitologia mundial, é o ciclo de morte e renascimento, um motivo presente em praticamente todas as culturas e essencial para a criação dos mitos.
A epopeia de Manas acompanha a história ao longo de três gerações: Manas, seu filho e seu neto. Ao final de cada ciclo narrativo, com exceção do último, o herói morre, seu reino é destruído e seu jovem filho sobrevive para crescer, reconstruir o reino e reiniciar o ciclo.
Independentemente de Manas ter existido ou não, ele representa a própria essência do espírito quirguiz. Ainda hoje, é comum que os habitantes do Quirguistão desejem uns aos outros: “Que o espírito de Manas o proteja.“
Os manaschi
Originalmente, esses narradores eram conhecidos como jomokchu, termo derivado da palavra quirguiz jomok, que significa “conto” ou “narrativa”. Atualmente, são chamados de manaschi, em referência ao próprio Manas, já que a maioria deles se dedica exclusivamente à recitação dessa epopeia.
Muitos manaschi consideram sua atividade uma verdadeira vocação espiritual. Frequentemente contam histórias detalhadas sobre como foram “tocados por Manas”, experiência que lhes teria concedido a capacidade de recitar a epopeia em versos durante horas a fio, mantendo a plateia completamente envolvida.
Antes da disseminação da alfabetização, essa função de memorizar e transmitir oralmente os grandes relatos era essencial em inúmeras culturas. Foi justamente graças a essa tradição que a epopeia de Manas permaneceu uma parte viva, dinâmica e adaptável da cultura quirguiz ao longo dos séculos.
Quando os quirguizes adotaram o islamismo, por volta do século XII, a narrativa de Manas passou a incorporar ideais islâmicos, sem, contudo, perder seus elementos pagãos. Segundo uma interpretação popular, o nome Manas seria formado pela letra M, de Mohamed (Maomé); pela letra N, de Nabi (“profeta”, em árabe); e pela letra S, que representaria a cauda curvada de um leão, o animal espiritual protetor de Manas.
À primeira vista, essa explicação pode parecer incomum, mas ela reflete bem a forma singular como o islamismo se desenvolveu no Quirguistão, com a nova religião sendo incorporada às antigas crenças, em vez de substituí-las completamente.
Os manaschi continuam utilizando a epopeia de Manas para comentar acontecimentos políticos contemporâneos. A queda da União Soviética, por exemplo, foi um evento tão marcante que passou a integrar os versos de algumas versões da narrativa.
Durante o período soviético, a epopeia e suas apresentações eram frequentemente censuradas por serem consideradas uma manifestação do chamado “nacionalismo burguês”. Oficialmente, apenas pequenos trechos podiam ser apresentados ao público, sempre acompanhados de interpretações que comparavam as quarenta tribos unificadas por Manas aos diferentes povos da União Soviética, defendendo a ideia de que todos deveriam permanecer unidos.
Apesar disso, a versão completa da epopeia sobreviveu dentro dos lares quirguizes. Em âmbito privado, muitas pessoas continuaram a aprender e recitar de memória centenas de milhares de versos transmitidos oralmente. Ainda hoje, a maioria dos quirguizes afirma ter conhecido as histórias de Manas por meio dos ensinamentos de seus pais e avós.
Manas continua sendo uma figura extremamente relevante no Quirguistão por diversas razões. Muitas famílias ainda traçam sua origem a uma das quarenta tribos que, segundo a tradição, foram unificadas por ele.
Se você se interessou pelo tema e deseja conhecer mais sobre Manas e a história do povo Quirguiz, não deixe de visitar a página da Professora Elmira Köçümkulkïz.
http://www.silkroadfoundation.org/folklore/manas/manasintro.html
Um filme sobre a historia de Manas foi produzido em 1995 e encontra-se com Youtube com legendas em inglês.
Fontes: https://folkways.today/manas-manaschi-kyrgyzstan/
https://rees.sas.upenn.edu/about/spotlight/manas-kyrgyz-epic-poem
https://fabulahub.com/pt/story/epica-manas-quirguistao/sid-214


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